quarta-feira, 7 de julho de 2010

Quando o amor supera as barreiras do impossível.

Homem contrai dívidas para estudar doença do filho, e justiça evita despejo em Curitiba.
Juliana Granjeia/ Colaboradora para a folha
Uma decisão inédita da Justiça reverteu verba do fundo pecuniário (dinheiro recolhido de condenações judicias) para quitar a casa de um pai que abandonou o emprego para pesquisar a doença rara e incurável do filho. Ele seria despejado por falta de pagamento.
A história que lembra a do filme " Óleo de Lorenzo" (George Miller, 1982) aconteceu em Curitiba (PR). O engenheiro mecânico Adolfo Celso Guidi, 52, deixou o cargo de gerente de uma concessionária em 2000, ao descobrir que o filho Vitor Giovani Thomaz Guidi, à época com dez anos, tinha gangliosidade GN1 tipo 2.
"A doença começou a se manifestar quando ele tinha quatro anos. Nenhum médico no Brasil conseguiu fazer o diagnóstico. Larguei tudo e fiquei uma semana em Buenos Aires com aminha família, onde diagnósticaram a Gangliosidade. Quando eu retornei para o Brasil, um médico me disse que não tinha o que fazer", afirmou Guidi à folha.
Divulgação/Justiça Federal de Curitiba.
Vítor e o pai de Guidi, em audiência de conciliação com o banco em Curitiba (PR)
O engenheiro, inconformado com a resposta, começou a estudar a doença na biblioteca da faculdade de medicina da UFPR (Universidade Federal do Paraná). "A gangliosidose impede a reprodução de neurónios, que degeneram. Por meio de um processo homeopático, que funciona como um antídoto de veneno de cobra, a gente fornece essa enzima e o organismo trabalha", explicou o pai, que encontrou a fórmula de um medicamento para o filho em 2001.
Para alcançar esse resultado, Guidi diz que gastou, na época, cerca de US$ 80 mil dólares (cerca de R$ 149 mail atualmente) e deixou de pagar as prestações de sua casa. " Tudo saiu do meu bolso, não pude mais pagar nada e minha casa foi a leilão", afirmou.
O processo da Caixa Econômica Federal, financiadora da casa, contra Guidi teve inicio na Justiça no dia 30 de março de 2001. Depois de vários recursos, o caso caiu nas mãos - abençoadas, segundo o pai - da juíza Anne Karina Costa, 39, da Vara do Sistema Financeiro de Habitação de Curitiba (PR).
" O caso já estava tramitando em julgado e íamos fazer a liquidação, de acordo com a decisão judicial. Caso ele não pagasse o valor acordado, ele teria que sair do imóvel. Então, durante uma audiência de conciliaçaõ, ápos o representante da caixa propor um acordo, ele disse que queira explicar o motivo de não ter pago a dívida e contou a história do filho dele. Falei para juntar toda a documentação e iniciar uma campanha para arrecadar dinheiro", afirmou a juíza.
O Banco reduziu a dívida de Guidi de R$ 119.500 para R$ 48.500. Mesmo assim, ele não tinha possibilidade de pagar. "A única renda que eu tenho, vem do trabalho que faço quando dá tempo, na oficina mecânica que eu montei na minha casa", disse o engenheiro.
Mãe de três filhos, sensibilizada com a história de Guidi, Anne - que já foi juíza da vara Criminal - lembrou do fundo que a justiça mantém com as penas pecuniárias. "Fiz uma solicitaão para a juíza da 1a. Vara Criminal, Sandra Regian Soares, que é responsável pelo fundo, e para o Ministério Público Federal. O dinheiro arrecado com as penas vão para entidades assistenciais, eu tive a ideia de inscrever Guidi como um projeto". afirmou a juíza.
Decisão inedita
Em uma decisão, que pelo conhecimento de Anne e inedita no Brasil, o Ministério Público e a Vara Criminal autorizaram que o fundo fosse utilizado para o pagamento da dívida de Guidi com a Caixa. A audiência final foi no dia 13 de novembro de 2009. " O que eu fiz foi algo que estava dentro da minha possibilidade. Eu me coloquei no lugar dele e ele optou pelo filho. Não teria como exigir dele outra atitude. Além disso, se retirássemos a casa, acabaríamos com a única fonte renda dele", disse a juíza.
Maria Tereza Maffia,51, conciliadora da Caixa que atuou no caso, também diz que nunca ouviu falar de uma decisão como essa. "A Caixa é uma instituição financeira e nós fizemos tudo o que poderia ser feiro, de acordo com o contrato dele. Na última audiência, todos nós ficamos muito emocionados. Nós não sabíamos dessa possibilidade de encaminhar o caso de uma pessoa física como um projeto", disse.
A juíza espera que a decição se repita e sensibilize as intituições financeiras. "Foi uma decisão judicial que abre precedentes para outros casos. Espero que as instituições um dia, possam perdoar a dívida em casos excepcionais como esse".
Guidi cuida do filho sozinho, há três anos ele separou da mulher. "Ela ficou mais doente que meu filho e eu não percebi. Até hoje ela não saiu da depressão. Se eu pudesse voltar atrás, teria agido de outra forma, mas, na época minha decisão era salvar a vida do meu filho e eu tinha muito trabalho", afirmou Guidi.
Hoje, o engenheiro auxilia duas outras crianças que têm a mesma doença do Vitor, 21. " Com a enzima produzida na farmácia de manipulação e com a alimentação que eu pesquisei e preparo para meu filho todos os dias, ele está muito melhor. Ele não tem mais dificuldades de engolir e a musculatura não é mais contraída como antes".
Vitor só caminha com auxílio, por isso usa uma cadeira de rodas. Ele frequenta a escola de educação especial 29 de Março. onde Guidi é tesoureiro e voluntário.
Para Guidi, sua história é uma "grande obra de Deus". Eu sempre soube que não ia perder minha casa. Foi Deus quem colocou a juíza Anne e a Tereza da Caixa na minha vida. Se eu fosse para a rua, ninguém cuidaria do meu filho".